Indicadores
Como definir um indicador que a diretoria confia

Segunda-feira, reunião de resultados. O comercial apresenta a margem do mês. O financeiro apresenta outra, alguns pontos abaixo. Os vinte minutos seguintes vão para descobrir qual planilha está certa, e a decisão que motivou a reunião fica para a semana que vem.
Quase sempre, as duas áreas fizeram a conta certa. Cada uma fez uma conta diferente. Uma descontou as devoluções, a outra não. Uma usou a data do pedido, a outra a data da nota. Uma tirou do ERP, a outra de um relatório exportado na sexta-feira. O problema não está no sistema nem nas pessoas: está na falta de uma definição combinada.
Um indicador em que a diretoria confia é um número com regra escrita, fonte única e alguém que responde por ele. Este artigo mostra como chegar lá.
Comece pela decisão, não pelo gráfico
Todo indicador existe para apoiar uma decisão. Se ninguém consegue dizer qual, ele é só um número bonito no painel.
Antes de abrir o Power BI ou a planilha, escreva uma frase com três partes: o que se mede, com que frequência e para decidir o quê. Compare:
- "Margem."
- "Margem bruta por cliente, toda segunda-feira, para decidir a quem dar desconto na semana."
A segunda frase já resolve metade das discussões. Ela diz que a margem é bruta, que o recorte é por cliente e que o número precisa estar pronto antes da reunião de segunda. Também revela o que não importa: se o indicador serve para decidir desconto, a margem líquida do trimestre é outra conversa.

Escreva a ficha do indicador
A ficha é um documento curto, de uma página, que vira a referência de todos. Ela não precisa de ferramenta especial. Uma planilha compartilhada ou uma página no sistema de documentos da empresa resolve.
| Campo | O que escrever | Exemplo |
|---|---|---|
| Nome | Como todos vão chamar o indicador | Margem bruta |
| Pergunta | A decisão que ele apoia | A quem dar desconto nesta semana? |
| Fórmula | A conta, em palavras e em símbolos | (Receita líquida − Custo da mercadoria vendida) ÷ Receita líquida |
| O que entra e o que fica fora | As exceções, uma por linha | Entram notas de venda; ficam fora devoluções, bonificações e remessas |
| Data de referência | Qual data posiciona o fato no mês | Data de emissão da nota fiscal |
| Fonte | O sistema e a tabela de origem | Notas fiscais do ERP |
| Dono | Uma pessoa, com nome e cargo | Gerente financeiro |
| Atualização | Quando o número fica pronto | Diária, às 7h |
| Faixas de leitura | O que é bom, atenção e ruim | Acima de 30% bom; entre 25% e 30% atenção; abaixo de 25% ruim |
Os campos que mais evitam briga são "o que entra e o que fica fora" e "data de referência". É ali que as áreas costumam divergir sem perceber. Vale gastar mais tempo com eles do que com a fórmula.
As faixas de leitura do exemplo são ilustrativas. Cada empresa define as suas, a partir do próprio histórico.
Um dono por indicador
Comitê não é dono. O dono é a pessoa que responde quando o número parece estranho, aprova mudanças na regra e avisa quando algo muda na origem, como um novo tipo de operação no ERP.
O dono não precisa ser técnico. Precisa conhecer o processo que gera o dado. Para margem, costuma ser alguém do financeiro. Para prazo de entrega, alguém da operação. O time de dados implementa a regra; o dono decide qual é a regra.
Quando a pergunta "quem responde por este número?" não tem resposta rápida, o indicador ainda não está pronto para a diretoria.
Uma fonte só
Se o mesmo indicador é calculado em três lugares, em algum momento os três vão divergir. A saída é calcular uma vez, num lugar só, e fazer todo mundo ler dali.
No Power BI, isso significa escrever o indicador como uma medida no modelo semântico, a camada que guarda as tabelas, as relações e as fórmulas do negócio. Uma medida explícita é uma fórmula escrita em DAX, a linguagem de cálculo do Power BI, e o resultado é calculado na hora da consulta, sempre pela mesma regra [2]. Todos os relatórios que usam aquele modelo mostram o mesmo número.
O Power BI também permite marcar o modelo como promovido ou certificado. A certificação indica que o conteúdo atende aos padrões de qualidade da organização e pode ser tratado como fonte confiável. Só revisores definidos pelo administrador podem certificar [1]. Para quem consome o painel, o selo responde a uma pergunta comum: "posso usar este número na apresentação?"
Em empresas menores, sem esse processo formal, a regra é a mesma: um modelo oficial, com nome claro, e os outros arquivos apontando para ele.
Valide com números que todos conhecem
Antes de publicar, escolha três números que a diretoria já conhece de cor. O faturamento do mês passado, a margem do último trimestre fechado, o total de pedidos de um cliente grande.
Calcule cada um no painel, aplicando exatamente as regras da ficha, e compare com o número oficial do fechamento. Se bater, o indicador ganha credibilidade antes da primeira reunião. Se não bater, a diferença costuma estar na origem:
- um cadastro de produto com custo errado;
- uma devolução lançada fora do mês;
- uma venda entre empresas do mesmo grupo que deveria ficar fora;
- uma regra que cada área aplicava de um jeito.
Encontrar essas diferenças faz parte do trabalho, e é uma das partes que mais rendem: cada diferença explicada é uma discussão a menos nas próximas reuniões.
Registre cada mudança
A regra de um indicador muda com o negócio. Entra uma nova linha de produto, a empresa passa a vender por marketplace, o custo começa a incluir frete. Tudo bem mudar, desde que a mudança fique registrada.
No fim da ficha, mantenha um histórico simples: data, o que mudou, por quê e quem aprovou. Quando alguém comparar o número de hoje com o de um ano atrás, vai saber se a diferença é do negócio ou da regra.
Poucos indicadores, bem definidos
Uma diretoria que acompanha sessenta indicadores não acompanha nenhum. Comece pelos que apoiam as decisões mais frequentes e mais caras: preço, desconto, compra, cobrança, contratação. Em geral, isso cabe numa lista curta, que dá para revisar inteira numa reunião.
Depois que esses estiverem confiáveis, o resto fica mais fácil. A ficha, o dono, a fonte única e a validação viram rotina.
Checklist antes de levar à diretoria
- A frase "o que, com que frequência, para decidir o quê" está escrita.
- A ficha tem fórmula, exceções, data de referência e fonte.
- Há um dono, com nome.
- O indicador é calculado em um lugar só.
- Três números conhecidos foram conferidos e bateram.
- Existe um histórico de mudanças, mesmo que vazio.
Se algum item ficou sem resposta, resolva antes da próxima reunião de resultados. É mais barato do que discutir qual planilha está certa toda segunda-feira.
Referências
- Promover e certificar conteúdo do Power BI com endosso. Microsoft Learn, atualizado em 2026, consultado em 19/10/2026.
- Entenda o esquema em estrela e a importância para o Power BI. Microsoft Learn, consultado em 19/10/2026.