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Indicadores

Como definir um indicador que a diretoria confia

Por Amauri Marques · · leitura de 6 min

Artigo · Indicadores

Foto: Campaign Creators / Unsplash

Segunda-feira, reunião de resultados. O comercial apresenta a margem do mês. O financeiro apresenta outra, alguns pontos abaixo. Os vinte minutos seguintes vão para descobrir qual planilha está certa, e a decisão que motivou a reunião fica para a semana que vem.

Quase sempre, as duas áreas fizeram a conta certa. Cada uma fez uma conta diferente. Uma descontou as devoluções, a outra não. Uma usou a data do pedido, a outra a data da nota. Uma tirou do ERP, a outra de um relatório exportado na sexta-feira. O problema não está no sistema nem nas pessoas: está na falta de uma definição combinada.

Um indicador em que a diretoria confia é um número com regra escrita, fonte única e alguém que responde por ele. Este artigo mostra como chegar lá.

Comece pela decisão, não pelo gráfico

Todo indicador existe para apoiar uma decisão. Se ninguém consegue dizer qual, ele é só um número bonito no painel.

Antes de abrir o Power BI ou a planilha, escreva uma frase com três partes: o que se mede, com que frequência e para decidir o quê. Compare:

  • "Margem."
  • "Margem bruta por cliente, toda segunda-feira, para decidir a quem dar desconto na semana."

A segunda frase já resolve metade das discussões. Ela diz que a margem é bruta, que o recorte é por cliente e que o número precisa estar pronto antes da reunião de segunda. Também revela o que não importa: se o indicador serve para decidir desconto, a margem líquida do trimestre é outra conversa.

Duas pessoas desenhando um fluxo de processo num quadro branco
Escrever a regra antes de construir evita a discussão depois. · Foto: Kaleidico / Unsplash

Escreva a ficha do indicador

A ficha é um documento curto, de uma página, que vira a referência de todos. Ela não precisa de ferramenta especial. Uma planilha compartilhada ou uma página no sistema de documentos da empresa resolve.

CampoO que escreverExemplo
NomeComo todos vão chamar o indicadorMargem bruta
PerguntaA decisão que ele apoiaA quem dar desconto nesta semana?
FórmulaA conta, em palavras e em símbolos(Receita líquida − Custo da mercadoria vendida) ÷ Receita líquida
O que entra e o que fica foraAs exceções, uma por linhaEntram notas de venda; ficam fora devoluções, bonificações e remessas
Data de referênciaQual data posiciona o fato no mêsData de emissão da nota fiscal
FonteO sistema e a tabela de origemNotas fiscais do ERP
DonoUma pessoa, com nome e cargoGerente financeiro
AtualizaçãoQuando o número fica prontoDiária, às 7h
Faixas de leituraO que é bom, atenção e ruimAcima de 30% bom; entre 25% e 30% atenção; abaixo de 25% ruim

Os campos que mais evitam briga são "o que entra e o que fica fora" e "data de referência". É ali que as áreas costumam divergir sem perceber. Vale gastar mais tempo com eles do que com a fórmula.

As faixas de leitura do exemplo são ilustrativas. Cada empresa define as suas, a partir do próprio histórico.

Um dono por indicador

Comitê não é dono. O dono é a pessoa que responde quando o número parece estranho, aprova mudanças na regra e avisa quando algo muda na origem, como um novo tipo de operação no ERP.

O dono não precisa ser técnico. Precisa conhecer o processo que gera o dado. Para margem, costuma ser alguém do financeiro. Para prazo de entrega, alguém da operação. O time de dados implementa a regra; o dono decide qual é a regra.

Quando a pergunta "quem responde por este número?" não tem resposta rápida, o indicador ainda não está pronto para a diretoria.

Uma fonte só

Se o mesmo indicador é calculado em três lugares, em algum momento os três vão divergir. A saída é calcular uma vez, num lugar só, e fazer todo mundo ler dali.

No Power BI, isso significa escrever o indicador como uma medida no modelo semântico, a camada que guarda as tabelas, as relações e as fórmulas do negócio. Uma medida explícita é uma fórmula escrita em DAX, a linguagem de cálculo do Power BI, e o resultado é calculado na hora da consulta, sempre pela mesma regra [2]. Todos os relatórios que usam aquele modelo mostram o mesmo número.

O Power BI também permite marcar o modelo como promovido ou certificado. A certificação indica que o conteúdo atende aos padrões de qualidade da organização e pode ser tratado como fonte confiável. Só revisores definidos pelo administrador podem certificar [1]. Para quem consome o painel, o selo responde a uma pergunta comum: "posso usar este número na apresentação?"

Em empresas menores, sem esse processo formal, a regra é a mesma: um modelo oficial, com nome claro, e os outros arquivos apontando para ele.

Valide com números que todos conhecem

Antes de publicar, escolha três números que a diretoria já conhece de cor. O faturamento do mês passado, a margem do último trimestre fechado, o total de pedidos de um cliente grande.

Calcule cada um no painel, aplicando exatamente as regras da ficha, e compare com o número oficial do fechamento. Se bater, o indicador ganha credibilidade antes da primeira reunião. Se não bater, a diferença costuma estar na origem:

  • um cadastro de produto com custo errado;
  • uma devolução lançada fora do mês;
  • uma venda entre empresas do mesmo grupo que deveria ficar fora;
  • uma regra que cada área aplicava de um jeito.

Encontrar essas diferenças faz parte do trabalho, e é uma das partes que mais rendem: cada diferença explicada é uma discussão a menos nas próximas reuniões.

Registre cada mudança

A regra de um indicador muda com o negócio. Entra uma nova linha de produto, a empresa passa a vender por marketplace, o custo começa a incluir frete. Tudo bem mudar, desde que a mudança fique registrada.

No fim da ficha, mantenha um histórico simples: data, o que mudou, por quê e quem aprovou. Quando alguém comparar o número de hoje com o de um ano atrás, vai saber se a diferença é do negócio ou da regra.

Poucos indicadores, bem definidos

Uma diretoria que acompanha sessenta indicadores não acompanha nenhum. Comece pelos que apoiam as decisões mais frequentes e mais caras: preço, desconto, compra, cobrança, contratação. Em geral, isso cabe numa lista curta, que dá para revisar inteira numa reunião.

Depois que esses estiverem confiáveis, o resto fica mais fácil. A ficha, o dono, a fonte única e a validação viram rotina.

Checklist antes de levar à diretoria

  • A frase "o que, com que frequência, para decidir o quê" está escrita.
  • A ficha tem fórmula, exceções, data de referência e fonte.
  • Há um dono, com nome.
  • O indicador é calculado em um lugar só.
  • Três números conhecidos foram conferidos e bateram.
  • Existe um histórico de mudanças, mesmo que vazio.

Se algum item ficou sem resposta, resolva antes da próxima reunião de resultados. É mais barato do que discutir qual planilha está certa toda segunda-feira.

Referências

  1. Promover e certificar conteúdo do Power BI com endosso. Microsoft Learn, atualizado em 2026, consultado em 19/10/2026.
  2. Entenda o esquema em estrela e a importância para o Power BI. Microsoft Learn, consultado em 19/10/2026.